Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos…
A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!…
Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil…
Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança…
Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar…
Asas!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar…
Elis Regina
1 – Caía a tarde feito um viaduto
Ao cair da tarde a noite chega, a escuridão, a ditadura. Em 1970 um viaduto desabou sobre carros e ônibus matando muita gente. Na época nada se pode ser noticiado e tampouco as pessoas foram ressarcidas ou indenizadas. O incidente ocorreu em Belo Horizonte, viaduto da Gameleira, década de 1970.
2 – E um bêbado trajando luto
A figura do bêbado representa os artistas, poetas e músicos e outros “loucos”. Embriagados de liberdade ousavam levantar suas vozes contra a ditadura. Geralmente fica-se de luto quando há a morte de alguém. Neste caso o luto foi pela morte da democracia que, consequentemente acarretou na morte da Liberdade de Expressão; E também pela morte dos acidentados na queda do viaduto.
3 – Me lembrou Carlitos
Carlitos é como chamamos o personagem de Charles Chaplin, que era um vagabundo. Por isso a menção aos artistas e outros loucos.
4 – A lua, tal qual a dona de um bordel
A lua eram os políticos civis que se colocaram a favor do regime para obterem ganhos pessoais. Em determinadas épocas foram até chamados luas-pretas.*
A Câmara de Deputados e o Senado foram comparados a bordéis em determinada época devido aos negócios imorais que lá se faziam. Por sua vez os cidadãos não poderiam
vir a comentar, pois seriam, no mínimo, processados.
*Eram aqueles que atribuíam aos conselhos recebidos o status de dogma. Se lhe fora dito que a lua é preta é porque a lua é realmente preta sem questionamento. Um exemplo clássico é o de um general dizendo a um político o que fazer sem questioná-lo.
5 – Pedia a cada estrela fria
As estrelas frias são os generais, donos do poder.
6 – Um brilho de aluguel
Era, como mencionado acima, os ganhos pessoais e eleitorais que pelos civis que aceitavam ser marionetes. Alguns civis-marionetes cresceram tanto que chegam até mesmo a passar seus “criadores” em termos de poder.
7 – E nuvens, lá no mata-borrão do céu
As nuvens são comparadas aos torturadores, pois eram intocáveis e inalcançáveis. O mata-borrão é um instrumento antiquado em que, como o próprio nome diz, seu objetivo era apagar os erros, borrões na escrita. O DOI-CODI¹ era a nossa polícia política² da época. O mata-borrão do regime. Já o céu é uma alusão às prisões no sentido de serem inalcançáveis aos cidadãos comuns, aos cidadãos passivos que aceitavam o que lhes foram imposto devido ao medo da ditadura. Nesta canção, os cidadãos incomuns são os “bêbados”.
¹ – O Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) foi um órgão subordinado ao Exército, de inteligência e repressão do governo brasileiro durante o regime inaugurado com o golpe militar.
² – Uma polícia política é um corpo de polícia que serve a interesses de poder político, seja de um governo, de um partido político, de uma guerrilha ou um grupo paramilitar ou terrorista, ou qualquer outra instituição que busque manter uma situação de dominação ou alcançá-la. Diferentemente da polícia convencional, a polícia política não combate tanto criminosos no sentido estrito, mas dissidentes e oposicionistas que são considerados “inimigos” do grupo no poder.
8 – Chupavam manchas torturadas
Os rebeldes eram comparados a manchas, um erro na escrita, uma anomalia, algo fora da ordem ou um indisciplinado, fora dos moldes ditatoriais. Tais manchas (ou rebeldes se preferirem), eram torturados “dentro do mata-borrão no céu, pelas nuvens”.
9 – Que sufoco
A palavra “sufoco” no sentido figurado significa uma situação sem saída, desesperadora. Era assim que os rebeldes se sentiam.
10 – Louco, o bêbado com chapéu-coco
O bêbado se configura-se ainda como o cidadão incomum mas dessa vez importante e conhecido. O chapéu-coco foi um acessório usado pelos homens de negócios londrinos nas décadas de 1950-60. Por estarem em evidência, os artistas importantes poderiam vir a serem taxados de loucos por se expressarem.
11 – Fazia irreverências mil
Reforça a ideia de que os artistas nunca se calaram. Esta própria canção é uma das irreverências mesmo que de forma subliminar.
12 – Pra noite do Brasil, meu Brasil
À época era um tema recorrente. O regresso das liberdades políticas é comparada ao amanhecer. Em contramão, o anoitecer fora comparado à ditadura.
13 – Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Henfil foi um cartunista político muito visado pelo regime. Assim como seus dois irmãos, Betinho (sociólogo) e Chico Mário (músico), também havia contraído Hemofilia de sua mãe. Os três morreram de Aids.
Betinho foi um sociólogo que deu assessoria ao MEC e ao Ministro Paulo de Tarso Santos, sempre defendendo reformas. Em 1964 se mobilizou contra a ditadura e devido a repressão foi obrigado a se exilar no Chile em 1971 onde assessorou Salvador Allende até deposição em 1973 devido ao golpe de Pinochet. Voltou ao Brasil em 1979 como Anistiado*.
*Anistia vem do termo grego Anestesia que quer dizer esquecimento. O objetivo primordial da anistia é anular a punição e o fato que a causa.
14 – Com tanta gente que partiu
Os exilados políticos, assim como Betinho.
15 – Num rabo de foguete
Indica uma situação potencialmente perigosa, como uma “furada” ou uma “fria”.
16 – Choram Marias e Clarices // No solo do Brasil
Ambas mulheres de homens mortos pelo DOI-CODI. A primeira era mulher de Manuel Fiel Filho e a outra era esposa de Vladimir Herzog (Na verdade seu nome era Vlado mas considerava seu nome um tanto quanto exótico). Ambos tinham suspeitas de ligação com o Partido Comunista Brasileiro.
17 – Azar, a esperança equilibrista
A equilibrista era a esperança de democracia, um projeto de abertura política gradual, que a cada “eleição”, a cada evento que incomodava os militares (passeatas, etc), tinha sua existência ameaçada. Azar também tem o sentido de “Dane-se”, e ainda é empregado por agentes das forças armadas.
Comment by RAQUEL FREIRE PRESLEY — 17 de junho de 2013
´-
Muito boa a análise Sergio. Só Levantando mais dois pontos: Há quem diga que a Lua, na música, representa a Rede Globo. Um dos(quisá o)maior instrumento de mídia durante o regime militar. As estrelas frias seriam os militares. A lua, dona do bordel, destaca a importância da Globo no setor artístico da época. Ela tinha, vamos dizer o “poder de criar ídolos, imagens e pensamentos para a massa brasileira”. Dessa forma a música denuncia os subsídios que a emissora recebia dos militares e troca de programação pro-governo:”Pedia a cada estrela fria/Um brilho de aluguel “. O que é evidenciado no fato da emissora ter seu maior salto de estruturação durante o regime militar.
O segundo ponto: As nuvens pode ser interpretada também como os torturadores, uma vez que elas estava no “mata-borrão do céu”, colocando o céu com o alto (governo) .O mata borrão que tira o excesso da tinta,ou seja, que tira as informações “em excesso” , informações que incomodam(que interessam) o governo . As “manchas torturadas” são as vítimas do regime militar, que passaram pelo mata borrão.
Comment by Rafael Sampaio — 5 de janeiro de 2010
O site de analieses de letra da onde eu tirei isso.
http://www.youtube.com/watch?v=6kVBqefGcf4&hd=1
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